Em 1996, enquanto boa parte da indústria madeireira brasileira debatia-se sobre se o eucalipto era uma espécie exótica demais para ser plantada em grande escala, a Eucatex certificou suas florestas pelo FSC. O Forest Stewardship Council tinha sido criado há menos de três anos. No Brasil, o selo era praticamente desconhecido. Nenhum grande cliente exigia o documento.
A decisão decorria de uma leitura interna sobre o caminho que o setor trilharia.
Flávio Maluf descreve essa forma de pensar com uma formulação direta: antecipar tendências, não reagir a elas. É o mesmo princípio que atravessa cada movimento relevante nos trinta anos seguintes: do investimento florestal ao painel solar, da muda clonal à subsidiária na Flórida.
O que acontece quando você chega antes do mercado
Quatro anos após a certificação, a Eucatex passou a fornecer à Home Depot. A maior rede de varejo de materiais de construção dos Estados Unidos já incluía rastreabilidade ambiental entre seus critérios de compra. A empresa tinha o certificado. Os concorrentes que chegaram depois, não.
Essa relação comercial permanece ativa até hoje.
É uma cadeia de causa e efeito aparentemente simples, mas que depende de um ingrediente difícil de reproduzir: a disposição de investir antes que o retorno seja visível. Em 1996, não havia pesquisa que mostrasse que os consumidores pagariam mais por produtos certificados. O mercado que justificaria a decisão ainda não existia como pressão quantificável.
Dados da CNDL, compilados a partir de pesquisas da Opinion Box e da Neogrid, mostram que 37% dos consumidores brasileiros afirmam estar dispostos a pagar mais por produtos sustentáveis. Esse número era irrelevante três décadas atrás. Flávio Maluf apostou na trajetória, não no número corrente.
48 mil hectares como base de tudo
O eucalipto que sustenta toda a operação cresce em 48 mil hectares de florestas próprias no interior de São Paulo. A empresa produz 13 milhões de mudas clonais por ano, com investimento em melhoramento genético que a coloca entre as empresas com as maiores taxas de incremento médio anual do país.
O ciclo de colheita leva até sete anos, tempo consideravelmente inferior ao das espécies alternativas utilizadas na indústria madeireira. A madeira que não vai para a produção de painéis vira biomassa. Resíduos industriais alimentam um programa de reciclagem que conta com mais de 300 parceiros cadastrados. O Programa de Educação Ambiental, ativo desde 1999, conecta as comunidades próximas às operações ao manejo florestal que sustenta toda a cadeia produtiva.
São peças que se encaixam. Nenhuma foi construída de uma só vez.
Castilho e a lógica que se repete
O investimento de R$ 300 milhões na Usina Solar Castilho seguiu o mesmo raciocínio da certificação de 1996: chegar antes da demanda, não depois.
A planta, a maior do estado de São Paulo, elevou a participação de fontes sustentáveis na matriz energética das fábricas para 50%. Pesquisa de 2021, realizada pela Abrainc em parceria com a Brain, registrou que 66% dos entrevistados se dizem dispostos a pagar mais por imóveis com energia solar. O consumidor está caminhando para esse número. A Eucatex já chegou.
O que trinta anos de antecipação produziram
Em 2025, a receita alcançou R$ 3,1 bilhões. As exportações respondem por cerca de 25% desse total. Os Estados Unidos são o principal mercado externo, atendido pela subsidiária Eucatex North America, sediada na Flórida. O portfólio de destinos abrange mais de 40 países.
Em 2023, o BTG Pactual adquiriu 33,4% do capital total da empresa. A entrada do grupo financeiro no quadro societário confirmou, de forma tangível, que o modelo acumulado ao longo de três décadas tem solidez suficiente para atrair capital institucional de primeira linha.
Para 2026, o plano de investimentos prevê R$ 500 milhões, 40% a mais do que no ano anterior, com foco em expansão florestal, modernização industrial e possíveis aquisições no Brasil ou em mercados vizinhos como a Argentina.
A muda plantada em 1996 ainda está crescendo.






